Pretos e Favelados


Pretos e Favelados

 

O motor da transformação cultural que esteve nas mãos das classes médias intelectualizadas dos anos 60 e 70 que fizeram o "Maio de 68", "Movimento Beat" e o "Tropicalismo", hoje se encontra no seio das periferias, guetos e favelas.

 

Com acesso à tecnologia barata, à internet comunitária das "Lan Houses" e dispondo de uma habilidade maginífica de compartilhar conteúdos em diversas redes (virtuais ou reais), são nesses improváveis lugares que nasce uma cultura popular vigorosa, eletrônica e em constante mutação. Algo extraordinário e que acontece nas periferias do mundo não só do Brasil. Cumbia, Kuduro, Bhangra, são o "Baile Funk" de outras paragens!

 

Espaço de contradição social e criação cultural, estuário de novidade e renovação, palco de guerra e sangue, a favela representa hoje um vértice no urbanismo mundial, um estorvo dentro da sociedade formal. Fruto da exclusão da sociedade industrial, ela representa um campo onde a cultura se renova e ao mesmo tempo se contradiz. É neste espaço "para-urbano" que floresce a cultura do Funk.

 

A cultura popular das favelas é normalmente vista pela mídia de maneira esquemática e preconceituosa. Isso geralmente nos impede de compreender fenômenos de extrema importância na sociedade contemporânea. O Baile Funk é um exemplo bastante rico de como elementos culturais de procedências diversas são um dínamo da reconstrução cultural constante – mesmo, e principalmente, vindo de lugares rotulados como “marginais”. O Baile Funk, nascido em meio à violência e à pobreza das favelas do Rio de Janeiro, é provavelmente um dos movimentos musicais mais interessantes do mundo.  

 

O Baile Funk nunca precisou de aprovação do "stablisment" para acontecer ou existir.  E existe, tendo variadas facetas, onde cada uma delas refelete uma porção de dada realidade. Funk de Raiz, Funk de Consciência, Funk Melody, Funk Neurótico, Funk Putaria, Funk Proibido, Funk de Bonde e por aí vai. Me atenho aqui à questão do Funk Proibido, ou "Proibidão".

 

A Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática do Rio de Janeiro prendeu esta semana diversos Mcs de Funk acusados de formação de quadrilha, associação ao tráfico de drogas, incitação ao crime e apologia ao tráfico.

 

É fato que, todo favelado nasce sob três bandeiras no Rio de Janeiro: a do time de futebol que irá escolher; a da escola de samba, que normalmente é a que representa sua comunidade; e a do chefe do morro, atualmente facção criminosa, que é quem possui o domínio territorial de onde ele mora.

 

A maioria dos Mcs presos possui vinte e poucos anos, o que significa que eles nasceram sob o domínio de algum chefe do morro e que cresceram vendo os traficantes como pessoas poderosas, detentora das armas, mulheres mais cobiçadas, bens de consumo mais caros e muitas vezes únicos a prestarem algum tipo de assistência às pessoas que necessitam de algum remédio, material escolar, cadeira de rodas e etc.

 

Como dizer para um dos jovens funkeiros presos que a realidade que viveram por toda sua vida, se expressada em forma de letra é apologia ao crime? Como dizer que o refrão cantado por Mc Smith que expressa tão bem a realidade de milhares de jovens que vivem em comunidades é apologia ao crime e não o espelho de uma realidade: "Nossa vida e bandida, nosso sistema e bruto, Hoje somos festa amanha seremos luto".

 

Para entender o Funk Proibido é necessário entender em que contexto ele surgiu. No final dos anos 80, quando o funk comecou a se tornar um fenômeno de massas no Rio, muitas brigas aconteciam nos bailes que eram realizados em salões fora das favelas. O poder público encontrou uma solução tão drástica e ineficaz como a tomada agora pela polícia civil, simplesmente proibiu a realização dos bailes funk. Com isso os funkeiros foram obrigados a somente fazer bailes onde a polícia não chegava para reprimir, ou seja, dentro dos morros comandados pelas facções criminosas.
Assim o poder público do Rio de Janeiro jogou o movimento funk no colo dos traficantes, que passaram ser financiadores de vários bailes. Vale dizer que hoje em dia com o domínio de várias favelas pela milícia já existem diversos "Proibidões" que exaltam o poder de fogo e a força dos milicianos.

 

O caminho para acabar com os "Proibidões" não é a prisão dos Mcs, mas sim uma aproximação do poder público com o movimento funk e o fim das facções criminosas e das milícias que hoje controlam as comunidades.

 

Em São Paulo a Prefeitura realizou um trabalho localizado com os funkeiros em Cidade Tiradentes onde foi organizado um grande festival em que os Mcs não poderiam cantar letras de apologia ao crime, as drogas e com linguagem sexual explícita. Além do festival foi criado um local com aulas de Dj, grafite e um estúdio onde os Mcs podem gravar suas músicas gratuitamente. Com isso os "Proibidões" começaram a concorrer com outro tipo de funk, os chamados "Permitidões" que trazem mensagens positivas e conscientes.

 

O processo de criminalização do Funk e das áreas pobres do Rio existe não é de hoje, aliás qualquer movimento questionador que vem da favela sempre foi duramente reprimido como foram os primeiros sambistas da praça xv e os capoeristas do morro no início do século passado. Outro dos detidos, Mc Galo dá seu depoimento no filme FAVELA ON BLAST: "MC é o cara que canta. MC não da tiro em ninguém. MC não é traficante. FUNK não é facção. FUNK é povão".

 

Faço minhas, as palavras do companheiro de lutas e colega de profissão Ricardo Targino que escreveu em seu blog um protesto contra a onda de prisões a Mcs "Dos vadios e capoeiras, dos malandros e sambistas, dos funkeiros e favelados. Aqui o trato da Casa Grande para conosco sempre foi este: o açoite da noite. Nossa alegria e nossa festa é resistência frente às agruras da vida que insistem em nos impor. Venceremos! Havemos de amanhecer!" e termino com uma letra, que deu o título deste artigo e escarna a verdade "é som de preto, de favelado! Mas quando toca ninguém fica parado".

 


Por Leandro HBL